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Beto e sua banda

          Bem no comecinho da minha trajetória como cantor, recebi ligação de certo Luizinho, se dizendo empresário da noite de Muriaé (MG) que, com base nas boas referências das irmãs Castro Mayrink, minhas queridas amigas residentes naquela cidade, queria saber se eu integraria a programação da sua mais recém-inaugurada casa noturna. Ele precisava com urgência de novos artistas. Anos antes, eu me apresentara lá, levado por um amigo meu do Rio, o Magoo. O Primeiro Passo era um sobrado pequeno de janelões compridos, paredes verdes, com a proposta de ambiente intimista, meia luz, música instrumental baixinha ao fundo, mas logo se tornou badalado demais, lotado de gente até na escadaria, público atraído pelos desconhecidos cantores de música popular brasileira a revezar o microfone naquela peleja contra o vozerio e o tilintar de copos. Imprescindível o repertório que caísse no gosto da turma barulhenta para transformá-la no coro dos entusia...

A pianista do shopping

          “Pelo galo não cantar, o dia não vai deixar de raiar”. Li em voz alta a frase retirada do livro “Almanhaque” do Aparício Torelli (Barão de Itararé). Tornei a repeti-la, enquanto Simone me trazia um copo com água. Eu acabara de chegar esbaforido ao seu apartamento em Ipanema. - Pronto. Eis a frase do nosso dia. Agora podemos agitar por aí. Aquilo se convencionou. Todas as vezes que eu adentrava o apartamento dela, abria displicente aquele livro e colhia uma frase no rodapé da página, como uma forma de celebrar nosso encontro. Minha loura companheira de bagunças veio com a novidade: - Você não imagina o que eu descobri. Sabe o Cassino Atlântico? O shopping? - Sei. O que tem? - Tem uma senhora bem idosa tocando piano lá na meiuca da tarde. Achei graça daquela palavra meiuca”. Ela riu junto. - Um piano naquele shopping sem graça? - Vamos até lá ver? Que tal? Vamos chamar a Alayde. Topei, apesar de surpreso, porque ...

A cozinheira impecável

          Em visita ao amigo Victor Hugo, eis que ele me convidou a almoçar, todo animado com a cozinheira nova. - Ela me foi muito bem recomendada – sussurrou – Cuidadosa, limpa, cozinha maravilhosamente bem. Depois, aumentando o volume da voz, fez o comunicado à dita cuja que agia lá nos fundos: - Dona Edneia! Meu amigo Beto vai almoçar com a gente, tá? De onde estávamos, aquele compartimento precioso da casa era bem visível. Pude ver uma senhora magra levantando a tampa de uma panela no fogão e jogando pedaços de algo dentro. Largou utensílios na bancada e veio até a sala, pano de prato em um dos ombros, fungando e esfregando o nariz. - Seu Victor. Já desossei o frango, fiz o arroz e o feijão. Só me falta agora preparar a salada que é a minha especialidade. O senhor vai amar. Dito isso, a modesta retornou à função. Posicionou-se diante da pia e, de costas para nós, iniciou a lavagem das hortaliças. Ia manuseando folhas de alf...

Um Halloween em Portugal

          O engarrafamento ia longe pela Avenida Infante Dom Henrique e eu, dentro do ônibus, me afligia com o provável atraso. Marcara com Arthur sete horas em ponto na entrada da Starbucks do Rossio, mas, pelo andar da carruagem... Já havíamos estado juntos semanas antes naquela estação de trens, finalzinho de tarde sossegada, pouca gente na rua e, ao contrário do que eu imaginara, não brindamos nosso encontro com a famosa ginjinha, mas sim com a cerveja da Taverna Imperial, bem ao lado do Hotel Avenida Palace. Alguns pedintes e um senhor bem vestido fingindo vender óculos, mas oferecendo drogas, encurtaram nossa permanência ali. Dispensamos o Elevador de Santa Justa e, subindo a pé o Bairro Alto, vi descer um grupo gargalhante de homens rosados, carecas, vestindo camisas pretas com detalhes em amarelo. - Parecem alemães. De fato eram. Na Bertrand, a maior e mais antiga rede de livrarias do país, o livreiro comentou da partida de fu...

O pestinha da excursão

A situação contada aqui aconteceu de fato. Eu, minha família e amigos rumo a uma colônia de férias em Campos do Jordão. A disposição dentro do ônibus era a seguinte: os adultos todos na frente, a meninada do meio para trás, com os mais bagunceiros nos últimos assentos. Ali, o banheiro com porta defeituosa que não trancava. Saímos bem cedo e a viagem se iniciou alegre na primeira hora, com muitas conversas, a garotada puxando música, os gaiatos gritando coisas engraçadas. Nas horas seguintes, sossego. Porém, na subida da serra, estrada íngreme, intermináveis curvas, a porta do banheiro iniciou seu bailado irritante. Ela se abria e fechava, batia pra cá, batia pra lá. Naquele momento, a turma da algazarra instigava um dos meninos, o que era famoso por suas traquinagens. Vinha um, desferia-lhe um tapa na nuca e se escondia depressa. Vinha outro, repetia a façanha. E foram tapas, tapas, tapas. Ele reclamando, tentando reconhecer o agressor. Alguém soltou um deboche para atiçá...

Flanando por Santa Teresa

          Relendo sobre a morte do artista plástico Jorge Selaron, inevitavelmente, me teletransporto para meu tempo de morador de Santa Teresa. O chileno, cujo sobrenome era Morales, veio para cá em 90 e escolheu aquele bairro para morar e deixar sua obra impregnada, eternizada ali, como a famosa escadaria de azulejos que nos leva até o convento. Fecho os olhos e me vejo novamente lá, em uma das minhas quase diárias caminhadas noturnas com minha cockerzinha preta, subindo a Joaquim Murtinho, as luzes da cidade lá embaixo, o relógio da Central, o Cristo Redentor... No Largo do Curvelo, ultrapassamos o bonde, ainda apinhado de gente e conduzido pelo motorneiro Nelson. Alguns conhecidos me cumprimentam. No lado oposto da rua, minha vizinha Goretti vai arrastada pelo labrador Fred. Acho graça, mas me dou conta que Milla faz o mesmo comigo. Dos sobrados, escuto o som dos televisores, quase todos sintonizados no mesmo jornalismo. De brincadeir...

Vitórias e um fracasso em comércio informal

          Em tempos bicudos, propus à minha amiga Simone que inventássemos algo que melhorasse nossa situação financeira. A ideia era fabricarmos biscoitos amanteigados. - Biscoitos? Não sei fazer biscoitos, Beto. - Mas você tem mão boa, Simone. Sabe fazer pães e bolos. Podemos aprender. Pesquisamos receitas, maneiras variadas de confeccioná-los e transformamos a pequena cozinha do apartamento dela no louco e enfarinhado laboratório. Fizemos experimentações de ingredientes, com muitas fornadas que não deram certo. Quando, finalmente, pegamos o jeito, inventamos combinações de sabores. Os amanteigados acrescidos de gergelim, amêndoas, conhaque, chocolate, doce de leite, passas ao rum, também foram ganhando formatos variados para serem melhor identificados. Calculamos as porções e distribuímos em saquinhos plásticos, fechados por fitas coloridas, etiquetados e arrumados numa cesta grande de vime. Seguimos para a feira hippie de Ipanema. Nossa estra...