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Aniversários

Uma astróloga me disse que as crises de idade acontecem sempre às vésperas de completarmos números redondos. Começa com a crise dos 29. Depois vem a dos 39, 49 e por aí vai. Achava engraçado isso, não dava bola para tal bobagem. Talvez tivesse desenvolvido uma defesa por conta das brigas com meu pai que, durante minha infância e adolescência, sempre fazia questão de me avisar que, em breve, eu completaria 18 anos e serviria o exército, em breve, eu teria os 21 da maioridade e seria um homem feito, em breve eu estaria com 30, 40, 50, coberto de responsabilidades, pai de família, filhos, úlcera, enfarto, cabelos brancos, barriga... Ganhei uma mala dessas do James Bond para o futuro que me aguardava, afinal, era preciso me modificar. Caso não mudasse meu comportamento, meu jeito de vestir, meu cabelo, não seria nada na vida. O tempo foi passando e eu seguindo nesse meu jeito torto, moleque, meio inconsequente. No meu círculo de amizade, não havia um que escapasse com louvor do crivo dos...

Quem casa quer...

Tive uma breve carreira bancária. Trabalhei como escriturário na agência do Itaú da Praça Saens Pena por um período de um ano e pouco num setor chamado “Especiais”, onde cuidávamos de ordens de pagamentos, imposto de renda, FGTS, rescisões de trabalho, cartões de crédito, etc. Naquela época, o Brasil vivia uma recessão terrível e o quadro de funcionários era bem diversificado, indo do mais humilde até o pós-graduado, ambos em funções iguais. Porém, com toda a dificuldade econômica, pairava por lá uma vontade quase unanime: casar. Uma das exceções era Inácio, um gay assumido que vivia dizendo gracinhas pra mim, se insinuando, fazendo propostas indecentes. Fora isso, os caras e a mulherada do banco... A turma querendo casamento. E naquela minha curta passagem por lá, aconteceram alguns enlaces. Havia a Rosangela, que não falava de outra coisa, se gabando do vestido que ia usar, da ornamentação de primeira, do bolo monumental, dos gastos astronômicos da festa, do organista e coral que ...

A destruição causada por um coco

Sexta-feira, 12 de outubro de 1990. Eu indo com meu irmão Italo, Mauricio e a irmã dele Aurora para mais um final de semana na nossa casa de praia num condomínio em São Pedro d’Aldeia. Viajamos no Herbie, o fusquinha azul possante do Mauricio. Jamais poderia imaginar a tremenda encrenca em que nos meteríamos. A noite foi normal, tranquila. Deixamos as bagagens na casa para nos fartarmos com as pizzas do restaurante Vovó Chica em Araruama. Na volta, nos enchemos de chá para digerir aquela comilança antes do sono. Eu já havia encarado, dias antes, um churrasco com piscina pelo aniversário do meu pai.  Nossa casa no condomínio Moinhos d’Aldeia, além dos bons ambientes (sala, cozinha, três quartos e varandão), ganhara um anexo com suíte, sauna, garagem coberta e churrasqueira. Mas havia uma novidade que eu só conferi com o amanhecer do dia: descansando sobre um cavalete, uma lancha tinindo de nova, branca, estofamentos confortáveis e branquinhos, um painel bonito com volante e u...

Meus avós

Não conheci meu avô paterno. Faleceu antes do meu nascimento, antes mesmo do casamento dos meus pais. Chamava-se Duílio Caratori, era tintureiro, austero, calado, vivia para o trabalho. Mas dizem que teria sido um bom avô. Já o outro, pai de minha mãe, convivemos muito pouco com ele. Morava numa chácara escura cheia de plantas e cachorros em Jacarepaguá. Nós o víamos às vezes no Natal. Vinha, entregava presentes, nos beijava, sempre se atrapalhando com nossos nomes, e ia embora rápido. Eugenio era funcionário da rede ferroviária e compositor de músicas românticas. Era amigo do Lamartine Babo, da Carmen Miranda, do Ary e de tanta gente. Viveu por mais de quatro décadas em Jacarepaguá na companhia de Dora, mulher de temperamento forte que se foi antes dele. Anos depois, sozinho, foi encontrado no sofá com o braço estendido na direção do telefone. Enfarto. Minha avó Nadina nunca se conformou com a separação acontecida quando minha mãe tinha apenas treze anos. Não sei se esta foi a razã...

O presente inesperado

Aproveitando a ocasião do dia 20 de julho em que falam ser esse o dia do amigo, cito duas amigas queridas: uma é Maria de Lourdes, que aniversaria justamente neste dia. Ela me surpreendeu com sua ligação para dizer que mora agora em Viçosa e que está enxutérrima, feliz curtindo seus oitenta e dois anos. Lourdes esbanja juventude e alegria. A outra amiga é Simone, que completaria mais um ano de vida no dia 25 deste mês. Este aniversário, ela comemora agora em outras esferas. Lembro-me bem daquele domingo de sol, João Alexandre, filho dela, me ligou pedindo que eu o acompanhasse até o apartamento deles, porque não tinha coragem de entrar lá sozinho. Precisava desmontá-lo de vez, organizar algumas coisas pendentes antes de alugá-lo. As roupas dela já haviam sido doadas para uma instituição de caridade. Encontro com ele no calçadão da praia de Ipanema, pouso a mão sobre seu ombro e saímos conversando, vendo o povo na areia. Quando conheci Simone, João era um menino bem mirrado, seu ir...

Cantando o Brasil

Era sexta-feira, dia 06 de outubro de 2000, mais uma noite de cantoria no Clube Militar da Lagoa. Uma chuva forte caía sobre o Rio de Janeiro. Eu no interior do ônibus 409 paralisado por um engarrafamento gigantesco na Rua Jardim Botânico. No assento do lado oposto, um sujeito magro de óculos me observava, analisava meu visual, eu todo arrumado, de chapéu panamá na cabeça e um cavanhaque acidental por uma barba mal feita que me dava certo ar cafajeste. Ele não resistiu a pergunta: “Você é nordestino, não é?” Achei engraçado aquilo. “Não. Sou daqui mesmo.” “Ah é? É que sou fotógrafo e observo as pessoas. Eu achei...” “Sou carioca da gema”, reforcei. “Mas é cantor, não é?” “Sim. Estou indo agora cantar.” “Cantor de forró, acertei? Acho que já vi você e seu conjunto na televisão.” Não segurei o riso. “Olha... Eu até canto forró, mas não é minha especialidade.” Ele se desculpou do engano, mas continuou a me observar, talvez, não convencido das minhas respostas. Impaciente, abri...

O gambá e a careca do papai

Ainda na temática sobre bichos. Outro dia, passeando pelo Forte do Leme, um grupo de cinco a seis micos vieram quase na minha mão, interessados em algo que eu pudesse lhes dar para comer. O hábito de alguns turistas em oferecer coisas os viciou. Mas esses bichinhos são umas graças mesmo, não? Em Santa Teresa, via muitos passeando pelos fios do bonde e eu ficava apreensivo. Alguns morriam eletrocutados. Muito triste quando isto acontecia. Durante o tempo em que tive casa alugada em Lumiar, recebia visita de micos. Dava-lhes bananas e pedacinhos de pão pela janela. Pela manhã, como a casa não tinha forro e as paredes eram curtas, rolinhas invadiam meu espaço e sobrevoavam todos os cômodos. Durante o dia, em meus banhos no rio que corria nos fundos, eu costumava deitar-me numa pedra plana. Ali morava um lagartinho que acabou se acostumando comigo. Ficava parado, quieto ao meu lado. Meu companheiro na preguiça. Só não gostava quando cobras apareciam. Entrava em pânico. Numa noite, b...