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Começar tudo outra vez

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Lendo sobre a morte do artista plástico chileno Jorge Selarón, inevitavelmente, me teletransportei para o tempo em que fui morador de Santa Teresa. Selarón, cujo sobrenome era Morales, veio para cá em 90 e escolheu aquele bairro para morar e deixar sua obra impregnada, eternizada ali, como a famosa escadaria de azulejos que nos leva até o convento. E eu me vejo novamente lá, em uma das minhas quase diárias caminhadas noturnas com minha cockerzinha preta. Vou subindo a Joaquim Murtinho, as luzinhas da cidade lá embaixo, o relógio da Central, o Cristo Redentor. Chego ao Largo do Curvelo. O bonde, ainda apinhado de gente e conduzido pelo motorneiro Nelson, vai passando. Alguns conhecidos me cumprimentam, minha vizinha Goretti vai apressada do outro lado da rua com seu labrador Fred, mas Milla segue sem ligar para ele. Escuto os sons que vêm dos sobrados, os televisores quase todos sintonizados no mesmo canal. Vou pensando muitas coisas: um show cansativo no SESC, uma convers...

Beijos que matam

Tem gente que não gosta de beijo. Não beija na bochecha, não beija a mão de ninguém. Beijo na boca não, por receio de pegar bactéria. Faz sexo sem beijo, mete lábios e língua em toda a parte, naquelas intimidades, mas beijar na boca, nem pensar. Beijar é muito bom. Adoro. Alguém se lembra do primeiro beijo? Eu me lembro. Eu era apaixonado por uma garota branquela, magrinha, óculos de grau que se chamava Lúcia. A recíproca era verdadeira, mas nossa extrema timidez impedia que revelássemos um ao outro nossos sentimentos. Andávamos muito juntos. Nos finais de semana, brincávamos de balanço, gangorra, carrossel num parquinho. Ali, contávamos nossas bobagens e cantávamos nossa música preferida: “Na rua, na chuva, na fazenda” (Hyldon). Depois a gente se despedia com um tímido beijo no rosto e ficávamos esperando a semana passar para o novo encontro. Até o dia em que ela foi arrojada e, sem mais aquela, me sapecou um beijo na boca. Foi numa quadra de vôlei. Disse que queria ...

O pestinha da excursão

A situação contada aqui tem jeito de piada, mas não é. Aconteceu de fato. Eu e minha família nos metemos numa excursão de amigos para uma cidade do interior paulista com destino a uma colônia de férias serrana. Como se tratava de um grupo de amigos, a disposição dentro do ônibus era a seguinte: os adultos todos na frente, a meninada do meio para trás e, nos últimos assentos, os mais bagunceiros. O ônibus possuía um banheiro cuja porta estava com defeito, não trancava. Ela se abria o tempo todo e ficava batendo. Saímos bem cedo e a viagem se iniciou alegre. Muitas conversas, a garotada puxando música, os gaiatos gritando coisas engraçadas, muita diversão. Com o passar das horas, um sossego se fez. O ônibus começou a subir uma serra por estrada íngreme e de muitas curvas. E a porta do banheiro abrindo e fechando, batendo pra cá, batendo pra lá. Num certo momento, os bagunceiros resolveram espantar aquela modorra e provocar um dos meninos, justamente o famoso pelas perver...

Um encontro emocionante com Fafá de Belém

O fato que contarei agora, rememorei não faz muito tempo com a própria Fafá de Belém no camarim do Teatro Rival, após um lindo show que ela e sua filha Mariana fizeram lá. Trata-se da paixão de um fã por sua cantora. Certa manhã, uma amiga minha cearense me ligou aflita: “Beto. Você tem que vir aqui agora. Venha depressa.” “Aconteceu alguma coisa, Carminha?” “É o meu sobrinho Ricardo.” “Sobrinho?” “Mora no Ceará. Veio passar as férias comigo. Você tem que ver as coisas que ele faz.” Atendi ao chamado, mas fui a Copacabana só no início da tarde. Assim que entrei, ela me agarrou pelo braço e me levou até o quarto dela, onde um menino moreno, muito encabulado, quietinho mesmo, ajeitava sobre a cama umas folhas de cartolina tamanho A.3.     “Olhe só o que essa criatura faz.” Fiquei abismado com o que vi. Desenhos e mais desenhos da Fafá de Belém, o rosto dela em vários closes e, na altura dos seios, algum cenário, uma floresta, uma caravana com cavalos...

Confusões em carnaval das Arábias

Foi o ano do maior atraso dos desfiles, quando eu sai pela primeira vez pela Caprichosos de Pilares. Nesse carnaval, eu me meti por acaso em duas roubadas seguidas, dois acampamentos inusitados com pessoas de características e comportamentos diametralmente opostos. Eu namorava Ana Maria, uma menina muito religiosa, frequentadora de grupo jovem da Igreja Sagrados Corações. Em dias de folia, ela costumava fazer retiro espiritual. Naquele ano, viajou com os amigos para acampar nos fundos da casa de uma colega num condomínio em Rio das Ostras. Ela foi e eu fiquei para cair na folia com duas amigas, Rosane e Anadir. Saímos nos blocos, fomos à praia, tomamos banho de piscina e, finalmente, a estreia na Sapucaí. Nossa fantasia era um árabe estilizado com um lenço fino laranja para a cabeça, uma túnica com figuras brilhosas coladas, sandálias prateadas com tiras que iam se enroscando até perto do joelho e uma pistola e bomba de gasolina purpurinadas, representando a crise do petróle...

Terror e pizza no elevador

A torre do Castelinho do Flamengo estava lotada para uma tarde de domingo de muito calor. Ali, o compositor mangueirense Nelson Sargento se apresentava cantando suas composições magníficas e alternando com histórias curiosas que vivenciara. Na plateia, eu, a cantora Aurea Martins, uma amiga dela chamada Luiza e dois amigos de mesmo nome: Maurício. Quando o show terminou, Aurea propôs que fossemos todos ao apartamento dela papear. Concordamos. Mas antes, resolvemos dar uma passadinha numa pizzaria ali perto, no Largo do Machado, e compramos a que havia de maior, uma portuguesa tamanho gigante. O prédio dela, uma construção antiga dos anos quarenta ou cinquenta, possuía poucos andares e seu apartamento ficava no segundo andar. Logo, só precisaríamos subir apenas um lance de escadas. Mas, assim que entramos no saguão, nos metemos todos depressa para dentro do pequeno elevador parado naquele momento. Realmente era um micro elevador, porque nos apertamos. A pizza teve que ser elevada...

Literalmente na lama

Domingo de sol, eu com minha família no Governador Iate Clube na Ilha onde possuíamos uma lancha para nossos passeios de finais de semana. Meus pais haviam marcado com um casal um almoço de negócios lá. Minha avó paterna foi também, porque ficaria encarregada de tomar conta da gente enquanto o encontro acontecia. Meu pai combinou: “Mamãe. Só me apareça com as crianças no restaurante quando der meio-dia.” Meus pais sumiram pelo interior do clube. Eu com minha irmã, meu irmão ainda bem pequeno e minha avó ficamos de cá pra lá, de lá pra cá, tentando achar o que fazer, passando hora. Nós, acostumados apenas com roupas de banho e chinelos, para fazermos bonito junto ao casal ilustre, pela primeira vez circulávamos naquele lugar embecados com bermudas novas, camisas e sapatos com meias.  Minha avó, uma senhora humilde que não se importava com etiquetas, usava um vestido de florzinhas azuis bem simples, o melhor que ela tinha. Mas se sacrificava com sapatos que lhe apertavam os...