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A Pinopse

Olha... Aconteceu de verdade. Eu conversava com uma amiga sobre a estreia de um musical e uma fulana resolveu se meter na conversa e disse: “Eu li que deu o maior PLOBLEMA. Eles tiveram que mudar todo o CASTING.” Ouvi aquilo e disse apenas: “Ah... é?” E ela: “Sim. Foi a maior confusão. Li na revista que tiveram que mudar todo o STRIPT.” De pronto, não entendi: “Como é? STRIPT?” Ela deu um sorriso irônico e explicou: “O STRIPT. Não sabe o que é STRIPT? São as falas dos artistas.” “Aahhhhh... Você quer dizer... o script.” “Isso... STRIKT, STRIPT... Sei lá.” Mesmo com o sorriso desfeito pela minha correção, ela prosseguiu: “Mas eu não vou ver essa peça não.” “Ora... Por que?” “Já sei de tudo. Li na PINOPSE.” “Você quer dizer sinopse?” Para minha surpresa, ela explodiu num choro e foi dizendo ao se afastar: “As pessoas vivem me corrigindo. Eu devo ser uma burra mesmo.”

Meu encontro com um rei, um velho palhaço e um garçom

Meu pai seguiu carreira bancária num tempo em que dava prestígio se chegar ao cargo de gerente. E assim foi. Ele passou por todas as etapas, de caixa para auditor até virar gerente de agência no Meier. De vez em quando, eu e minha irmã íamos com nossa mãe visitá-lo no trabalho e ficávamos ali acomodados num sofá dentro de um cantinho especial acarpetado e com certas regalias do cargo: uma mesa bacana com o nome dele na placa (adorava brincar com aquela placa), luminárias, plantas e quadros enfeitando, cafezinho, água e refresco que a secretária oferecia a toda hora. E nosso pai ali, sério, conversando com clientes. Tudo ali respirava seriedade, o barulho das máquinas, o falatório dos funcionários, a secretária de lá pra cá com papéis. Mas o curioso era ver o povo que entrava e saía, gente engraçada, outros nem tanto. Eu observava cada um e criava personagens. Alguns davam medo, me faziam suspeitar que fossem assaltantes prestes a repetir aquelas cenas de tensão que vemos nos filmes...

A toalhinha íntima

Outro dia, o programa Bem Estar da TV Globo ensinava os procedimentos para a boa higiene, a maneira correta do indivíduo se limpar após a nobre, prazerosa e, algumas vezes sofrida evacuação.  Passa-se o papel higiênico para tirar o excesso, lava-se com a duchinha de água e finaliza-se enxugando com uma toalha reservada apenas para essa função. Adoto essa prática já de muitos anos (ops) e mantenho uma toalhinha higiênica pendurada num suporte ao lado do vaso sanitário, na altura da cintura, quando se está sentado. Ela está sempre bem visível e, quando recebo visitas, tenho a preocupação de guardá-la, tirá-la das vistas dos outros. Porém, algumas vezes eu me esqueço desse detalhe. Outro dia, um amigo, que sofre de fotofobia, entrou no banheiro para lavar as mãos no escuro e as enxugou na toalhinha. Na época em que eu morava no Centro da cidade, recebi a inesperada visita de uma fulana que entrou esbaforida, morrendo de calor. Ela pediu para ir ao banheiro, ficou lá dentro ...

Engarrafados, mas felizes

          Muito bom fazer amigos e bagunçar, ainda mais quando se é bem novinho. A gente não mede consequências, não se prende às regras. Eu já fui assim. Talvez ainda seja um pouco.  Lembro de uma vez em que voltávamos de São Pedro d’Aldeia, eu e duas amigas (Rosane e Anadir). Ônibus lotado. Final de feriado. Seguíamos com tranquilidade até que, de repente, tudo parou. Um engarrafamento absurdo desses que duram horas. Anadir já cochilava, como de hábito. Os passageiros contrariados foram desembarcando para conferir. Nós também saímos e constatamos o mar de automóveis desligando seus motores, as pessoas saltando, adultos, crianças, cachorros. Isso foi no trecho da estrada entre Araruama e Saquarema. De pronto, achei aborrecido, mas depois considerei uma aventura divertida. Na beira da estrada, muitos potes de barro, bichinhos de cerâmica e uma Branca de Neve com apenas três anões de enfeitar jardim. Mais ao lado, uma borracharia e uma birosca. Observ...

Vento, ventania, trovoadas, fogos de artifício

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Finalmente a chuva começou lá fora, porque o calor está de matar. Trovões já anunciavam que ela viria. Antes, os telejornais também. Não gosto de trovões. Não gosto. Também não suporto vento. Detesto ventania. Gosto de brisa. Não de vento forte. Se chego numa praia e está ventando, abro os braços e digo: “Maravilha!!!!” Cinco minutos de encantamento. No sexto minuto: “Que saco!” E a areia levantando. Vontade de mandar ladrilhar tudo. Ouvindo os estrondos, não tenho como não lembrar Milla, minha cockerzinha amada que me deixou ano passado. Em dias de trovoadas e ventos fortes, ficávamos os dois aflitos. A gatinha Milu jamais demonstrou qualquer reação. Se Milla ainda vivesse, estaria nesse instante latindo e correndo pela sala nervosa. Em certos momentos pararia na minha frente, me olharia como quem diz: “Não vai fazer nada?” E pediria colo. Como de hábito, eu a pegaria, daria meus beijos e diria para nos consolar: “Calminha. Vai passar, meu anjo.” E ...

Muitos nomes, tagarelices e a voz de um cantor

Nos tempos da minha garotice, a Avenida Brasil foi nosso religioso caminho para os muitos finais de semana na Ilha do Governador.  Lá, éramos associados ao GIC – Governador Iate Clube, onde meu pai mantinha uma pequena lancha com motor vinte cavalos e capacidade para seis pessoas. Era vermelha e branca e possuía umas orelhinhas laterais que a faziam se assemelhar com a bat-lancha do famoso Homem-morcego. Bem cedo, eu e meus irmãos nos acomodávamos no banco traseiro do fusca e, mal ganhávamos a rua, iniciávamos nossa brincadeira de papear como gente grande. Nossos pais na frente conversando coisas de adultos e nós os imitando. Olhávamos os letreiros, os outdoors da Avenida Brasil passando, imaginávamos que eram nomes de pessoas, amigos imaginários e assim tudo se dava: - O Good-Year ligou ontem. - O que ele queria? - Chamar pra festa na casa do Luporini. Parece que o Pirelli e a Gelli vão também. - To sabendo. Mas o Bob’s disse que as festas na casa do Luporini são cha...

Minha primeira vez

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          Outro dia, de dentro do ônibus vendo o muro dentado do Colégio Militar passando, me dei conta que já se passaram trinta anos, quando subi pela primeira vez no palco daquele colégio tijucano para cantar. Lembro que o auditório estava lotado. Fui escalado para fazer o ultimo número daquela Tarde de Talentos da Casa Milton de Pianos, onde eu era estudante de violão e teclado. Apesar do calor, meti um casaco cinza atoalhado por cima da camisa azul para esconder as enormes manchas do intenso suor que escorria como cascata das minhas axilas, assim como dos pés e mãos, de tão assustado que eu estava. Também veio a dor de barriga. Medo. Disseram-me para cantar olhando um ponto fixo imaginário e fingir que não havia ninguém ali. E foi assim, igual estátua, que cantei Flor de Liz (Djavan) e Barbara (Chico Buarque - Ruy Guerra). Depois retornei ao palco para repetir Flor de Liz. Na saída, no meio de cumprimentos, recebi um convite muito interess...