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Uma amizade sincera (Clarice Lispector)

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Não é que fôssemos amigos de longa data. Conhecemo-nos apenas no último ano da escola. Desde esse momento estávamos juntos a qualquer hora. Há tanto tempo precisávamos de um amigo que nada havia que não confiássemos um ao outro. Chegamos a um ponto de amizade que não podíamos mais guardar um pensamento: um telefonava logo ao outro, marcando encontro imediato. Depois da conversa, sentíamo-nos tão contentes como se nos tivéssemos presenteado a nós mesmos. Esse estado de comunicação contínua chegou a tal exaltação que, no dia em que nada tínhamos a nos confiar, procurávamos com alguma aflição um assunto. Só que o assunto havia de ser grave, pois em qualquer um não caberia a veemência de uma sinceridade pela primeira vez experimentada. Já nesse tempo apareceram os primeiros sinais de perturbação entre nós. Às vezes um telefonava, encontrávamo-nos, e nada tínhamos a nos dizer. Éramos muito jovens e não sabíamos ficar calados. De início, quando começou a faltar assunto, tentamos comenta...

O voo (Menocci del Pichia)

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Goza a euforia do voo do anjo perdido em ti. Não indagues se nossas estradas, tempo e vento, desabam no abismo. Que sabes tu do fim? Se temes que teu mistério seja uma noite, enche-o de estrelas. Conserva a ilusão de que teu voo te leva sempre para o mais alto. No deslumbramento da ascensão, se pressentires que amanhã estarás mudo, esgota, como um pássaro, as canções que tens na garganta. Canta. Canta para conservar a ilusão de festa e de vitória. Talvez as canções adormeçam as feras que esperam devorar o pássaro. Desde que nasceste não és mais que um voo no tempo. Rumo do céu? Que importa a rota. Voa e canta enquanto resistirem as asas. (Menocci del Pichia)

Gentileza gera...

          A chuva dera uma trégua naquele início de noite de sábado. Muita água ainda descia do morro, quando vi passar ao longe Seu Tibúrcio, prestes a encarar uma ladeira bastante enlameada. O magro octogenário todo arrumadinho no seu terno cinza seguia para casa. Preocupado, imediatamente, montei na minha moto cinquenta cilindradas e emparelhei com ele se equilibrando na derradeira pedra de meio fio, sem saber como prosseguir. Naquele trecho da rua o paralelepípedo já não mais existia. Só lama, muita lama. "Sobe aqui, Seu Tibúrcio. Sobe que eu levo o senhor até lá em cima." O elegante ancião olhou para a máquina rosnando, surpreso com o insano convite. "Sou um senhor de idade. Não tem como eu andar num troço desses." "Se o senhor se segurar firme, a gente consegue. Prometo ir bem devagar.” “Você garante que não vou cair?” “Caso sinta que está escorregando, avise que eu paro." "Mas eu estou de terno... É um terno novo..." El...

Milla e Milu

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U ma tênue luminosidade vai entrando pelas frestas que dão acesso ao quarto. Quero dormir um pouco mais, mas sei que será impossível. Desde criança levanto cedo, mas, de uns anos para cá, se quisesse alterar esse hábito, seria impossível por dois motivos. O primeiro deles se chama Milla. Sei que está a me observar da sua cama, instalada na quina da parede em frente. Tento enganá-la, me fingindo de adormecido. Ela desconfia. Sai de onde está para se aproximar da minha cabeceira, atenta a qualquer movimento meu. Em menos de um minuto, já está sobre a cama e, quase por cima de mim, gruda seu focinho no meu rosto. Prevendo que levarei uma lambida na boca, sou obrigado a desviar. Ela se anima e eu me rendo. E a beijo e a abraço. Em seguida, ela se ajeita ao meu lado e vira a barriguinha pra cima pedindo meus carinhos. Corro os dedos de cima para baixo. Ela fecha os olhos, ajeita seu corpo peludo bem grudado ao meu, pousa sua cabeça no meu braço para tirar um último soninho. A ideia de...

Quem é Ary?

Eu quietinho aqui no computador, mas um som lá fora, uma festa onde o povo está cantando de tudo e muito: funk, sambas-enredo, pagodão... E de repente, a galera começa um "esse coqueiro que dá coco..." Eu me lembrei de um episódio que vivi em 2005, acho. Envolvido que estava na leitura do livro do jornalista Sergio Cabral sobre a biografia de Ary Barroso. Fui até a Rua André Cavalcanti no Centro para conhecer o endereço onde o compositor de "Aquarela do Brasil" chegou a viver por um tempo. A casa virara um hotel barato. Entrei e encontrei logo um senhor português, que era o proprietário. Contei-lhe sobre a relação daquela casa com o artista. Ele mostrou total desconhecimento. Virou-se para a mocinha da recepção, já adiantando que ela é quem sabia das coisas, e lhe perguntou: "Tu sabes afinal quem é esse Ary Barroso?" E ela, prontamente, respondeu um pouco indecisa: "É o cantor daquele grupo de pagode, que eu esqueci o nome. Não é moço?...

Coisas do Brasil

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Dia seis de outubro de dois mil. Era uma sexta-feira. Aquela foi uma das noites mais curiosas que já vivi nessa estrada de cantorias por aqui e acolá. Chovia a cântaros e eu me encontrava todo arrumado, chapéu na cabeça, dentro do ônibus 409 parado num engarrafamento no Jardim Botânico, atrasado para ir cantar na varanda do Clube Militar da Lagoa. Atrasei-me muito por conta do caldo verde que oferecera horas antes a um casal de amigos e pelas crateras que tinha feito na barba, ao tentar apará-la, com a habilidade e a delicadeza de um lenhador. Resultado: acabei tirando tudo e deixando um cavanhaque ridículo que me dava um ar meio cafajeste. Um cara magrinho de óculos sentou ao meu lado no ônibus, deu uma conferida no meu visual e não resistiu: “Desculpa perguntar... Sou fotógrafo e observo as pessoas. Você é cantor?” "Sim". “E é do nordeste, não é?” “Não sou não. Mas adoro o povo nordestino.” “Mas você assim de chapéu... Achei que fosse cantor de forró.” “Ol...

Recordando Simone III

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Há algum tempo, nos falávamos apenas por telefone. Simone andava indisposta, dizia passar muito tempo deitada, mas não queria entrar em detalhes. Apenas garantia que, em breve, estaria em forma novamente. "Sou uma fortaleza, se esqueceu?" Avisei que iria até lá para uma visita. Há muito tempo não promovíamos mais aqueles nossos alegres encontros, com direito a vinho, pizza, música e as frases engraçadas colhidas do “Almanhaque” de Aparício Torelli, o Barão de Itararé. Ela recusou. Queria ficar um tempo só. Tive que respeitar sua vontade. E assim foi. Eu ligava umas três vezes na semana para contar sobre o meu dia-a-dia, dizer coisas engraçadas, falar detalhes de um show que fiz em Botafogo, lamentando a ausência daquela que se auto-intitulava líder do meu fã clube. Ela, num claro desânimo, não correspondia às brincadeiras, como de costume. Por ocasião do falecimento do meu pai, me pediu milhões de desculpas por não ter comparecido ao velório, porque estava com mui...